Em Bagé, quando alguém chega a um grupo, há sempre uma pergunta que se levanta, meio disfarçada, quase como quem quer puxar conversa, mas na verdade está montando o quebra-cabeça da cidade:
— É filho de quem?
A frase vem suave, dita entre um gole de café e uma olhada curiosa. E por trás dela há todo um mapa invisível de relações, de memórias e de fronteiras. É o modo bageense — e talvez brasileiro — de situar o outro no mundo. Saber de onde vem, de qual tronco brotou, de que galho caiu.
Às vezes, é só isso mesmo: curiosidade afetiva. Aliás, faço isso também, movido por curiosidade ancestral. É um jeito de tentar achar um ponto de encontro: “Ah, é filho do Fulano do Banco? Então conheço desde guri!”. A cidade é feita dessas teias — de sobrenomes que se cruzam, de lembranças que se repetem, de vizinhos que viram parentes de tanto tempo dividindo o mesmo vento.
Mas há um outro lado, mais sutil e menos bonito.
Porque nem sempre a pergunta quer saber de onde alguém vem — quer saber até onde pode ir.
É uma forma disfarçada de medir o peso do nome, de avaliar se aquele rosto novo carrega um sobrenome que abre portas ou se vai precisar empurrá-las com o ombro.
E assim, entre risos e lembranças, a cidade segue desenhando seus próprios mapas de pertencimento — quem tem nome, entra; quem não tem, espera.
Há uma herança silenciosa nisso, quase colonial, de achar que o valor está na raiz e não no fruto. Que o sangue importa mais que o gesto. Que a história começa sempre antes da gente — e que cabe a nós apenas repeti-la.
Mas o tempo anda, e as cidades mudam, mesmo que devagar.
Talvez esteja na hora de fazer outra pergunta.
Não “é filho de quem”, mas “quem é você?”.
Não “de onde veio”, mas “o que faz?”.
Porque chega uma hora em que o nome dos pais já não basta.
E é preciso começar a responder pelo próprio nome.
Que Bagé — e o mundo — possam aprender a conhecer as pessoas não pelos sobrenomes que herdaram, mas pelos caminhos que constroem, pelas palavras que dizem, pelos gestos que deixam no chão depois da chuva.
Porque, no fim das contas, o que realmente importa não é de quem viemos.
É quem escolhemos ser.